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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A má cultura brasileira

          Começo a crônica sem a menor noção do que direi. Tenho uma quantidade de assuntos que me espicaçam o espírito, mas reluto. Aqueles que seriam uma verbalização de minhas indignações tanto me estremecem que, admito, não consigo lhes dar algum sentido, lhes pôr em ordem, lhes organizar na mente. Por exemplo, o trânsito.
          Paro para dizer que bem sei que estamos todos indignados. Ou, melhor, muitos estão, mas nem todos. E os que não estão estarão em breve, quero crer. Basta que lhes chegue a hora de ser vítima. Não tarda. As opções para indignação são inúmeras. O bom e honesto brasileiro, o brasileiro de bem, tem colecionado todas elas, e é vítima de todas elas porquanto tem experimentado na pele a frustração de ser bom e honesto. 
          Falar do trânsito, portanto, não é uma novidade, uma manchete de jornal, um tema inusitado. O trânsito é uma enorme fonte de frustração do bom brasileiro e, além disso, fonte de doadores de órgãos para transplantes evitáveis, fonte de cadáveres para o IML, fonte de drenagem de recursos, e por aí vai. Nossas esquerdas estão exultantes, juntamente com as empresas da cadeia produtiva e de venda de veículos de quatro rodas, porque todos agora podem ter o seu carro. Isso é o que entendem por "socialismo". Ter é o grande lance, assim como o gol é o grande momento do futebol.
          Hoje mesmo eu tive a decepção que invade aquele que alimenta esperanças. Por duas vezes, uma pela manhã e outra à tarde, dois carros avançaram a preferencial à minha frente quando por ela eu trafegava em minha motocicleta. Numa das vezes eu vinha dando sinais de luz e até toquei a buzina para alertar aos veículos parados de minha passagem. Nada aconteceu porque ando em baixa velocidade e parei sem problemas antes que uma colisão ocorresse. É desolador perceber que aquelas pessoas que dirigiam aqueles carros, um deles uma dessas caminhonetes quatro por quatro que o cearense adora, não se importam em lesionar alguém, não dão a mínima para o mais singelo direito do que trafega pela preferencial. 
          Em nenhum dos dois episódios pude ver a cara dos guiadores – os veículos tinham seus vidros revestidos por películas de proteção. Eles se protegem dos assaltantes e o motociclista deles se protege. Vejam como pensa o brasileiro não inteiramente honesto. Para ele, só ele tem direitos. Ao momento de ceder por obrigação legal o direito a outro cidadão, ele o nega acintosamente. 
          Alguém dirá em sua espessa estupidez que tudo isso é "cultural", e estamos conversados. Ora, dizer que é cultural explica mas não justifica. Assim como se diz de várias de outras de nossas mazelas, o mau brasileiro age mal porque é "cultural". E assim como a mazela do trânsito, tudo o mais que temos de ruim é "cultural". A justiça incompetente é incompetente porque é "cultural", a educação pública de má qualidade é de má qualidade porque é "cultural", e assim de cultural em cultural não damos certo porque é "cultural". 
          Conta o Laurentino Gomes, em seu "1808" e em seu "1822", que no Brasil colônia três coisas eram proibidas: estradas ligando as províncias, escolas e negócios. Tudo por uma simples razão: para manter a colônia colônia, ora essa. Chegando Dom João VI, trazendo consigo a corte e deixando para trás Portugal entregue à própria sorte sob a ameaça napoleônica, iniciou-se o processo de separação da colônia – criaram-se escolas, abriram-se estradas e permitiu-se a abertura de pequenos negócios. Mas não é à toa que nossas escolas ainda sejam péssimas, que as províncias ainda se excluam mutuamente ainda que veladamente – vejam-se as diferenças regionais –, e que ainda tenhamos um dos piores ambientes de negócios do mundo. O que se fez à colônia em trezentos anos de exploração e submissão ainda se reflete, e muito, quase duzentos anos após sua independência. Isso, sim, é cultural. 
          "Cultural" vem de "cultura", de "cultivar", de manter certos hábitos. Então, o mau brasileiro é mau por hábito. A "cultura", o "cultivar" maus hábitos, tornou mau o brasileiro. É o que se pode simplesmente concluir? Se assim o for, que diachos fez o Darcy Ribeiro tentando explicar o brasileiro em obras extensíssimas e complicadíssimas? Melhor ler no Laurentino Gomes em deduções mais simples e repletas de evidências na realidade atual.
          No tempo do Dom João VI eram as carruagens, os tílburis e outros veículos similares, puxados pela alimária. Será que se fez algum estudo sobre o trânsito da época? Será que já existiam as preferenciais e as secundárias, e algum tipo de código de conduta nas ruas poeirentas e esburacadas? Se não, podemos presumir que já imperava o mesmo mau comportamento dos maus cidadãos? Já havia o mesmo desrespeito pelo direito alheio? o mesmo desrespeito pela vida humana?   o mesmo desprezo a manifestar o sentimento de repulsa por alguém julgado inferior através de uma dedução sumária, simplória e estúpida?