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sábado, 10 de maio de 2014

Os devoradores de mentes

         Juro por tudo que há de mais sagrado aos vossos olhos – detesto escrever sobre coisas ruins. Lembrem que, não faz muito tempo, um amigo me alertou: sua filha não gostaria de meus temas. E justificou: escrevo sobre coisas ruins.
Peço, então, uma única e singela oportunidade. E que me julguem se é ruim quem escreve ou a própria realidade. E, se é ruim a realidade, quem a faz assim? Quem escreve sobre ela, demonstrando-a, dissecando-a, escancarando-a? Ou quem a constrói todos os dias?
Raimundo Edison tem 43. É gerente de uma fábrica. Saiu de um restaurante próximo à empresa onde trabalha, onde almoçava, e foi atropelado. O motorista estava a beber no mesmo restaurante. Estava bêbado. Raimundo sofreu um traumatismo crânio-encefálico leve, mas teve seu tornozelo esmagado. O esmagamento causou uma fratura-luxação exposta gravíssima do tornozelo esquerdo com lesão vascular múltipla e complexa, ruptura da cápsula articular e perda da cobertura circunferencial da pele. Evoluiu com gangrena do pé requerendo a amputação da perna abaixo do joelho. Suas chances de reabilitação são ótimas, mas terá de usar uma prótese para voltar a andar. É humilde. Seu meio lhe ensinou que deve ter uma ajuda vitalícia do governo. Há de requerê-la. O motorista bêbado saiu livre e talvez um dia atropele e mate outra pessoa. Sua irresponsabilidade gerou um custo absolutamente desnecessário ao sistema de saúde e, talvez, ao sistema previdenciário. A sociedade prefere arcar com as conseqüências de seu ato irresponsável a puni-lo exemplarmente.
Francisco Elço tem 31. Estava bêbado quando pilotava sua motocicleta, e não usava capacete. O acidente foi no interior e no interior não se fiscalizam os motociclistas nem as motocicletas. Ao contrário, alguns políticos sugeriram que aos pobres não é obrigatório cumprir a lei. Por isso a fiscalização não fiscaliza. A constituição diz que todos são iguais perante a lei. Não é o que dizem esses políticos e gestores públicos. Os pobres, por serem pobres, não podem cumprir a lei, e por isso são “isentos”, ou inimputáveis. Não se mudou a constituição, mas o que diabos é a constituição? Serve pra quê? Nada disso importa. Os fatos são os seguintes além dos relatados acima. Francisco Elço teve um trauma tão complexo de seu membro inferior esquerdo (coxa-perna-pé) que chegou ao hospital da capital em franco choque hemorrágico. Mais um pouco e a bebedeira custar-lhe-ia a vida. Não foi possível, contudo, salvar-lhe o membro. Foi necessária uma desarticulação coxo-femoral. Como é pobre, Francisco Elço nunca terá uma prótese que substitua seu membro perdido. Usará muletas e cadeira de rodas, que o governo providenciará. Como não tem estudo, pedirá ao governo aposentadoria por invalidez. A sociedade se julga muito rica, já que prefere arcar com esses custos a prevenir esse tipo de trauma absolutamente evitável. Não quer coibir e punir o pobre porque o pobre deve continuar pobre e dependente do governo. Será melhor para o pobre? Os custos do tratamento hospitalar de Francisco Elço são elevadíssimos. Não importa. Ele é inimputável. O governo reconhece, como representante da sociedade, que ele é pobre por sua responsabilidade. Por isso não o faz cumprir a lei. A sociedade se exime de salvar Elço dele mesmo. ainda paga todas as despesas.
Severino Filadélfia vinha há três dias bebendo. Também acabou perdendo o membro inferior direito. Não vou repetir a mesma história. Poderia contá-la dez, quinze vezes. É o número de vezes que ela ocorre no IJF em... o que? Três, quatro meses? Não são perguntas difíceis de responder. Basta consultar a base de dados. Eles estão lá. Os dados. Mas, o que são dados neste lugar, neste país? Nada, absolutamente nada. Para que servem? Para nada. Para que servem dados gritantes se seus gritos não se ouvem? Ainda estamos discutindo o que só se discute em sociedades atrasadas. Ainda discutimos o que é e o que não é uma emergência. Ainda não sabemos. Persiste a dúvida. Discordamos do elementar. Ora, ainda discutimos para que sirva a cadeia! Para punir ou para recuperar? Sempre achei esta uma questão tão básica: - para punir. Vai ver é por isso que o sujeito que mata uma única e solitária vez não vai para a cadeia – não há nada nele a recuperar. Seu crime foi um acidente de percurso, por assim dizer. É um sujeito com residência fixa, curso superior, bons antecedentes. É um sujeito exemplar. Para ir para a cadeia, que antes se torne um facínora. Então, tentemos recuperá-lo. E para recuperá-lo não o prendamos por muito tempo, mesmo que seja um facínora. Não queremos gastar dinheiro público com essas pessoas. Vamos submetê-las a uma “progressão da pena” para desafogar a fossa.
Enquanto fazia o curativo do senhor Francisco Elço e o examinava, lá fora passava um veículo com o som às alturas, um forró, um jingle de candidato a político. Às alturas. Quando era menino me impressionavam as placas defronte os hospitais exigindo “Silêncio! Hospital!” Hoje...
Lá fora, ali na frente, o jovem maltrapilho dorme sobre um colchão maltrapilho coberto com um lençol maltrapilho. Na calçada. Bem cedo alguém vem lhe trazer a pedra. Ele paga com o dinheiro que alguém lhe dá por bem ou por mal e está fechado o negócio. Todos os dias. Todos sabem. Todo dia. Todos sabem...
Vou ao centro. Outros lá estão, sob marquises, à porta de lojas, sobre os bancos das paradas de ônibus. Dormindo sob o sol escaldante da “Fortaleza Bela”. São adolescentes e crianças. Sujos, maltrapilhos, magros, feios, abandonados.
Adentra o hospital quem está fora. O povo vem e vai. Ninguém se importa. Meu amigo quer evitar que sua linda filha se importe. Como todo o resto.

Fernando Cavalcanti, 25.08.2010              

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Indignação criminosa

                A rua Antonio Augusto é uma das muitas ruas desta cidade que nascem próximo ao mar e se embrenham no sentido do interior. Ela começa na Avenida Historiador Raimundo Girão. Em que pese o fato de sua numeração ser progressivamente maior à medida que avança para longe do mar, seu sentido de tráfego é o oposto, do interior para a praia. Ela, portanto, é via de mão única.
                Em seu nascedouro há dois condomínios recém construídos, um à direita, o outro à esquerda. Posicionam-se um defronte o outro. O acesso à garagem de ambos se dá justamente pela Antônio Augusto. A Historiador é avenida de mão dupla.
                Assim, devido a essa disposição de tráfego é freqüente que motoristas e motociclistas cedam à tentação de trafegar por ela na contra-mão, principalmente os moradores dos dois referidos prédios localizados à esquina. Por que contornar o quarteirão para entrar na garagem se posso trafegar por 15 ou 20 metros na contra-mão e ter acesso a ela?
                A Antônio Augusto é rua de movimento relativamente intenso em determinadas horas do dia e da noite, o que faz com que o tráfego por ela na contra-mão seja uma manobra arriscada e até afrontosa aos veículos que estão transitando segundo manda a lei.
                  Raramente saio à noite na motocicleta, salvo em casos excepcionais. Segunda passada saí. E eis que desço Antonio Augusto no sentido praia. Aproximo-me do cruzamento com Historiador. A poucos metros, quase chegando, percebo um carrão enorme, um desses modelos que os cearenses gostam mais que todo o resto da população brasileira, se insinuando para avançar pela contra-mão. Não parei. Ao notar minha aproximação ele brecou. Ficamos parados um defronte o outro, cara a cara, o carrão e minha motocicleta, na esquina. Meu pneu dianteiro estaria a, o quê,  30 centímetros de seu para-choque da frente. Não conseguia ver o rosto do guiador. Estava escuro e o para-brisa se revestia de uma película negra. Passaram-se cerca de 15 a 20 segundos.
                Ele então engatou a ré e retrocedeu o suficiente para, distanciando-se um pouco da motocicleta, engatar a marcha e contornar aquele motociclista de merda que se postara à sua frente impedindo-o de entrar direto na contra-mão. Não desistiu, contudo. Contornou-me e entrou no contra-fluxo, na faixa ao lado, para entrar na garagem do prédio à esquerda do fluxo. Ao passar por mim, encarou-me sério e resmungando alguma coisa baixinho. Certamente disse: -"Filho da puta"!; ou, como se diz aqui no Ceará: -"Baitola"! 
                Eu estava indignado. Não com o xingamento, mas com a audácia do "cidadão" que cometera uma infração grave e de risco para terceiros. Por sua vez, a indignação do homem também era clara feito água. Admito: - minha indignação cresceu ainda mais, e muito, por conta dessa indignação criminosa. 
                Passei a primeira e debandei certo de ter arriscado a vida: - escapei de ser abalroado de frente e de ser alvejado com um tiro. Em ambas as hipóteses, somente eu sairia perdendo. O criminoso escaparia cheio de indultos e de amenizações, e eu estaria apodrecendo debaixo de sete palmos de terra seca. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A má cultura brasileira

          Começo a crônica sem a menor noção do que direi. Tenho uma quantidade de assuntos que me espicaçam o espírito, mas reluto. Aqueles que seriam uma verbalização de minhas indignações tanto me estremecem que, admito, não consigo lhes dar algum sentido, lhes pôr em ordem, lhes organizar na mente. Por exemplo, o trânsito.
          Paro para dizer que bem sei que estamos todos indignados. Ou, melhor, muitos estão, mas nem todos. E os que não estão estarão em breve, quero crer. Basta que lhes chegue a hora de ser vítima. Não tarda. As opções para indignação são inúmeras. O bom e honesto brasileiro, o brasileiro de bem, tem colecionado todas elas, e é vítima de todas elas porquanto tem experimentado na pele a frustração de ser bom e honesto. 
          Falar do trânsito, portanto, não é uma novidade, uma manchete de jornal, um tema inusitado. O trânsito é uma enorme fonte de frustração do bom brasileiro e, além disso, fonte de doadores de órgãos para transplantes evitáveis, fonte de cadáveres para o IML, fonte de drenagem de recursos, e por aí vai. Nossas esquerdas estão exultantes, juntamente com as empresas da cadeia produtiva e de venda de veículos de quatro rodas, porque todos agora podem ter o seu carro. Isso é o que entendem por "socialismo". Ter é o grande lance, assim como o gol é o grande momento do futebol.
          Hoje mesmo eu tive a decepção que invade aquele que alimenta esperanças. Por duas vezes, uma pela manhã e outra à tarde, dois carros avançaram a preferencial à minha frente quando por ela eu trafegava em minha motocicleta. Numa das vezes eu vinha dando sinais de luz e até toquei a buzina para alertar aos veículos parados de minha passagem. Nada aconteceu porque ando em baixa velocidade e parei sem problemas antes que uma colisão ocorresse. É desolador perceber que aquelas pessoas que dirigiam aqueles carros, um deles uma dessas caminhonetes quatro por quatro que o cearense adora, não se importam em lesionar alguém, não dão a mínima para o mais singelo direito do que trafega pela preferencial. 
          Em nenhum dos dois episódios pude ver a cara dos guiadores – os veículos tinham seus vidros revestidos por películas de proteção. Eles se protegem dos assaltantes e o motociclista deles se protege. Vejam como pensa o brasileiro não inteiramente honesto. Para ele, só ele tem direitos. Ao momento de ceder por obrigação legal o direito a outro cidadão, ele o nega acintosamente. 
          Alguém dirá em sua espessa estupidez que tudo isso é "cultural", e estamos conversados. Ora, dizer que é cultural explica mas não justifica. Assim como se diz de várias de outras de nossas mazelas, o mau brasileiro age mal porque é "cultural". E assim como a mazela do trânsito, tudo o mais que temos de ruim é "cultural". A justiça incompetente é incompetente porque é "cultural", a educação pública de má qualidade é de má qualidade porque é "cultural", e assim de cultural em cultural não damos certo porque é "cultural". 
          Conta o Laurentino Gomes, em seu "1808" e em seu "1822", que no Brasil colônia três coisas eram proibidas: estradas ligando as províncias, escolas e negócios. Tudo por uma simples razão: para manter a colônia colônia, ora essa. Chegando Dom João VI, trazendo consigo a corte e deixando para trás Portugal entregue à própria sorte sob a ameaça napoleônica, iniciou-se o processo de separação da colônia – criaram-se escolas, abriram-se estradas e permitiu-se a abertura de pequenos negócios. Mas não é à toa que nossas escolas ainda sejam péssimas, que as províncias ainda se excluam mutuamente ainda que veladamente – vejam-se as diferenças regionais –, e que ainda tenhamos um dos piores ambientes de negócios do mundo. O que se fez à colônia em trezentos anos de exploração e submissão ainda se reflete, e muito, quase duzentos anos após sua independência. Isso, sim, é cultural. 
          "Cultural" vem de "cultura", de "cultivar", de manter certos hábitos. Então, o mau brasileiro é mau por hábito. A "cultura", o "cultivar" maus hábitos, tornou mau o brasileiro. É o que se pode simplesmente concluir? Se assim o for, que diachos fez o Darcy Ribeiro tentando explicar o brasileiro em obras extensíssimas e complicadíssimas? Melhor ler no Laurentino Gomes em deduções mais simples e repletas de evidências na realidade atual.
          No tempo do Dom João VI eram as carruagens, os tílburis e outros veículos similares, puxados pela alimária. Será que se fez algum estudo sobre o trânsito da época? Será que já existiam as preferenciais e as secundárias, e algum tipo de código de conduta nas ruas poeirentas e esburacadas? Se não, podemos presumir que já imperava o mesmo mau comportamento dos maus cidadãos? Já havia o mesmo desrespeito pelo direito alheio? o mesmo desrespeito pela vida humana?   o mesmo desprezo a manifestar o sentimento de repulsa por alguém julgado inferior através de uma dedução sumária, simplória e estúpida? 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os doze mandamentos do motociclismo

1 – Mantenha a motocicleta sempre em ordem

Verifique a calibragem e o estado geral dos pneus; cheque o funcionamento do farol, setas, lanterna e luz de freio; verifique o cabo, lonas, ou pastilhas, fluido e a regulagem se for freio hidráulico; confira o cabo, e a regulagem da folga ideal do sistema hidráulico; revise os amortecedores traseiros e as bengalas dianteiras quanto a vazamentos; verifique a vela, cachimbo e cabo; troque periodicamente o conjunto de coroa, corrente e pinhão; tenha sempre a mão a CNH e o CRLV; utilize o protetor de pernas (mata-cachorro) e a antena anti-cerol.


2 – Pilote utilizando equipamentos de segurança

Capacete aprovado pelo Inmetro; calça e jaqueta de tecido resistente (preferencialmente de couro); botas ou sapados reforçados e luvas (de preferência de couro).

3 – Reduza a velocidade

Quanto menor a velocidade, maior será o tempo disponível para lidar com o perigo de uma condição adversa ou situações inesperadas, como mudança súbita de trajetória de outro veículo.

4 – Atenção e concentração

O ato de pilotar motocicletas exige muita atenção do motociclista, por isso evite se distrair.

5 – Respeite a sinalização de trânsito

Conheça e respeite os sinais e as placas de trânsito.

6 – Cuidado nos cruzamentos

Os cruzamentos são os locais de maior incidência de acidentes de trânsito, então redobre a atenção e reduza a velocidade ao se aproximar dos mesmos, principalmente nos cruzamentos sem sinalização de semáforos.

7 – Cuidado nas ultrapassagens

Sinalize as manobras com antecedência e certifique-se de que você realmente foi visto pelo motorista a ser ultrapassado. Tenha cuidado ao passar entre veículos, principalmente ônibus e caminhões.

8 – Cuidado com pedestres

Lembre-se de que o pedestre tem prioridade no trânsito urbano. Seja cordial e fique alerta para os pedestres desatentos, principalmente crianças e idosos.

9 – Seja visto

Ao pilotar à noite, use roupas claras e com materiais refletivos.

10 – Alcoolismo

Está comprovado que bebida e direção não combinam. Então, se beber, não pilote. Fique vivo no trânsito.

11 – Mantenha distância

É imprescindível manter uma distância segura dos veículos à frente (cerca de cinco metros), principalmente em avenidas e rodovias.

12 – Cuidado com a chuva

Redobre a atenção, reduza a velocidade e evite freadas bruscas; lembre-se de que nestas condições o tempo de frenagem é duas vezes maior que o normal.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Há ou não uma diferença, Pasquale?

          Ouvi agora, há pouco, o âncora de um telejornal anunciar que alguém, um adolescente da FEBEM, acho, fora "enforcado até a morte". De imediato fiquei pensando se há algum enforcado que não o seja, já que enforcar(-se) significa "dar morte a alguém na forca" ou "matar-se por enforcamento". Daí minha conclusão: - o redator pretendeu enfatizar a morte do adolescente, certificar ao telespectador que o jovem, de fato, morreu. Usou de uma tautologia para, quem sabe, anunciar o fato com sensacionalismo. O jornalismo sabe muito bem fazer isso.
                 Faz-se isso também, muitas vezes, com o verbo "afogar(-se)". Diz-se comumente: -"Fulano morreu afogado", quando o correto seria dizer apenas que "fulano afogou-se". Se o fulano passou maus bocados na água, mas sobreviveu, diz-se que fulano sofreu um quase-afogamento. 

          Vejam, por exemplo, que, no dicionário de língua portuguesa, motoqueiro e motociclista são sinônimos, significam a mesma coisa, isto é, "a pessoa que conduz uma motocicleta". O diabo é que nem a morfologia - que é o ramo da lingüística que estuda a estrutura, a formação e a classificação das palavras - favorece o conceito distinto que faço de ambas. "Ista" e "eiro" são sufixos que formam nomes de agente e, portanto – sem entrar em mais detalhes porque minha ignorância não permite –, motociclista e motoqueiro também têm uma excelente base morfológica para lhes irmanar o significado. Aparentemente estou em maus lençóis na questão, como o fulano que não sabe nadar, uma vez que insisto na diferença gritante e aparentemente inexistente entre ambas. Assalta-me, todavia, a nítida certeza de que não me afogarei na matéria.

          A distinção, caro leitor, está não no pai dos burros nem na morfologia, mas no comportamento. Alguém dirá que uso de uma reprovável justificativa para subverter o ordenamento das regras da língua madre, numa demonstração de obtusidade e tibieza,  e provavelmente estará certo quem o alegar. Entenda apenas o entediado leitor que o faço por uma questão de vida ou morte, de integridade ou mutilação, de prevenção de gastos públicos desnecessários e de invalidezes evitáveis. Se tudo isso não justificar os meios então o mensalão também não justificará o projeto petista de poder.
          Há uma ideia de meus próprios miolos que faz bem ver a distinção entre motoqueiros e motociclistas. O motoqueiro pensa a motocicleta como uma bicicleta motorizada, uma bicicleta com motor, ao passo que o motociclista a entende como um carro sobre duas rodas. Não sei se fui claro, mas me pareceu a princípio uma excelente característica distintiva. Se não, vejamos.
          O sujeito que anda de bicicleta sobe a calçada e a passarela, pedala entre os veículos, não se obriga a parar no vermelho, trafega na contra-mão, não respeita as faixas, e se percebe cheio de razão e privilégios no trânsito. Enche a cara quando bem quer e entende. Afinal, não há lei que proíba de beber o ciclista. Óbvio é que o ciclista que ama a vida não a põe em risco à toa. O motoqueiro seria um ciclista debochado, petulante, arrogante e, acima de tudo, irresponsável. Faz tudo aquilo e um pouco mais em sua bicicleta provida de motor, o que o leva a ousar a única manobra que não faria com a bicicleta desprovida daquele – pilotar em alta velocidade. 
          O motociclista, por sua vez, sabe que seu veículo é um carro sem cabine, sem para-choques, com a desvantagem adicional de rodar sobre duas rodas. Pilota como quem dirige um carro e cheio de medo e exagerados cuidados. Imagina que sua motocicleta ocupe o mesmo espaço que um verdadeiro carro e procura estar sempre à vista de todos. Cerca-se, portanto, de todos os cuidados possíveis e impossíveis a todos os outros condutores. O motociclista é neurótico e medroso, tranqüilo e manso, gentil e cauteloso; quer proteger a todo custo a integridade da pessoa que mais ama na vida – ele mesmo. 
          Agora me diga: - há ou não uma diferença, Pasquale?

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O trânsito, o Estado e a imprensa

          Acabo de assistir à matéria levada ao ar em  certo programa de televisão local em que se abordou o alarmante aumento do número de acidentes com motocicletas no Estado do Ceará. Entrevistaram-se o doutor Lineu Jucá, cirurgião vascular do Instituto Dr. José Frota, e um ex-paciente daquele hospital vitimado por acidente em sua motocicleta.            
          Devo dizer que a entrevista foi decepcionante; não em decorrência dos entrevistados, mas por inteira responsabilidade do entrevistador. Após a exposição, por parte do doutor Lineu, das apavorantes estatísticas que demostram a completa e aparentemente definitiva falência dos poderes constituídos e das autoridades de trânsito do Estado e, por que não dizer?, do país no que tange ao controle do caos em que ele se tornou e do breve relato do ex-paciente sobre seu acidente, o entrevistador encerrou sumariamente a entrevista. Senti-me como o sujeito que está a conversar com alguém e repentinamente se vê falando sozinho, posto que o outro abandona o entrevero antes do fim.            
          Nem me darei o trabalho de falar mal do entrevistador porque ele é âncora de um programa de auditório e não um repórter. Se em seu currículo constar que tenha formação jornalística poderemos lhe cobrar as aulas a que faltou, mas até lá lhe daremos o beneficio da dúvida. A última pergunta que fez – só fez duas ou três – foi magistral: "o que se pode fazer para diminuir isso, doutor Lineu?" O médico apenas começou a responder. E a entrevista terminou. Vejam que não digo que o entrevistado foi interrompido ou coisa que o valha. Sua resposta até então seria o introdutório a um discurso maior já que estaria justamente aí toda a essência do que queríamos e gostaríamos muitíssimo de saber. Mas não. Tudo ficou por aí, na superficialidade eterna de nossas entrevistas e matérias jornalísticas. Estarei certamente cometendo uma pequena injustiça com raros, excelentes e competentes jornalistas de nossa terra, mas só em lembrá-los e lhes atribuir uma exceção a esse vergonhosa regra me redime de tal.            
          A resposta do doutor Lineu foi clara como água – disse que tudo o que se tinha a fazer para reduzir e minimizar os acidentes com motocicletas e as mortes e mutilações decorrentes destes seria, por parte dos motociclistas, obedecer estritamente às regras e leis do trânsito e, por parte das autoridades, fiscalizar e punir exemplarmente os infratores. O que o entrevistador deveria ter feito a essas alturas seria explorar destemidamente as razões e os porquês de nem um nem outro estarem fazendo a sua parte.            
         Virando-se para o mutilado, que fazia questão de exibir como um troféu a sua perneta, o entrevistador indagou-lhe das circunstâncias de seu acidente. Ele respondeu que estava completamente embriagado na ocasião. Não me recorda se ele se referiu a ter cometido outra falta grave como não estar usando equipamento de segurança, ou estar com a habilitação vencida, ou trafegar em alta velocidade; só a embriaguez foi o suficiente para me estarrecer. Naquele momento o entrevistador poderia ter explorado de forma cordial, no acidentado, quais as razões que o levaram a agir daquela forma, pondo em risco a sua própria vida. Ao espectador se daria a oportunidade de lucubrar sobre o que se passa na mente de indivíduos como aquele.            
         Doutor Lineu ainda destacou aspecto importante sobre os acidentes de motocicleta: seu custo direto na forma de recursos gastos pelo Estado no tratamento desses indivíduos, bem como seu custo indireto na forma de ausência do trabalho, invalidez temporária ou permanente. Não havia na entrevista nenhum represente do povo, alguém do Estado, para explicar por que ele, Estado, não demonstrava estar zelando para minimizar a perda da dinheirama por este rombo a céu aberto.            
         Enfim, muito subjetivamente, apenas muito subjetivamente, dá para entender por que o problema não terá solução e por que a imprensa local não informa com qualidade. Ou não ficou claro? 

17.06.2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Motociclista é quem mais morre no trânsito do Ceará

Ali no supermercado avisto a manchete estampada à primeira página do jornal O Povo de hoje, 08.06.2012:“Motociclista é quem mais morre no trânsito no Ceará” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2012/06/08/noticiasjornalfortaleza,2854824/em-dez-anos-numero-de-mortes-cresceu-quase-195.shtml).
Dou-me à insolência de corrigir o editor e o revisor do jornal reescrevendo sua principal manchete. Ficaria assim: “Motociclista é quem mais morre no trânsito do Ceará”. Agora passo à arrogância de amputar-lhes a manchete e escrevê-la de outra forma, mais reduzida. Seria: “Motociclista é quem mais morre no trânsito”. Tal prepotência me exime da acusação de plágio do título. Caberia, a partir de agora, a seguinte pergunta: motociclistas são os que mais morrem no trânsito em todo o mundo? É assim em Maceió? no Xapuri? em São Paulo? E em Curitiba, a cidade que se tornou modelo de cidade para nós? um tipo a ser imitado. Lá também morrem os motociclistas tão desgraçadamente como cá?
Imaginemos que tenhamos à mão as estatísticas de mortalidade no trânsito de todas as cidades do mundo com mais de 50 mil habitantes, e que na maioria absoluta delas ficasse evidente que, sim, os motociclistas são a fatalidade número um. Poderíamos concluir, quero crer, que pilotar uma motocicleta seria, em termos absolutos em todo o mundo, muito mais mortal do que dirigir um carro ou andar a pé.
Ainda assim teríamos sérias dúvidas. Digamos agora que em todas as cidades do mundo o motociclista morresse mais, exceto em uma cidade. A pergunta seria: o que tem esta cidade que lá os motociclistas morrem bem menos no trânsito que em todas as outras?
Vê-se que estatísticas dessa natureza só servem a evidenciar os problemas, ou soluções, ou diferenças de lugares específicos, motivo pelo qual parabenizo os editores do O Povo por terem incluído em sua manchete de hoje o local específico onde os motociclistas estão a morrer cada vez mais – o estado do Ceará.
Entremos aos detalhes da matéria da jornalista Gabriela Meneses. Lá escreve ela o seguinte: “Para os órgãos de trânsito, o aumento da frota associada à imprudência contribuiu para o crescimento dos números”.
Quanto ao aumento da frota diz o chefe do núcleo de trânsito da Autarquia Municipal de Trânsito: “Quanto mais carros maior o conflito para conseguir um espaço na rua”. Uma psicóloga pesquisadora do tema “mobilidade urbana” disse ainda sobre o aumento da frota: “o espaço reduz e quem está nas vias faz de tudo para ocupar seu território e é nesse momento que se começa a desrespeitar as leis do trânsito”.
Referindo-se à imprudência a matéria conclui que “não usar capacete, ultrapassar o limite de velocidade e pilotar ‘costurando’ os carros” são as maiores cometidas pelos motociclistas.
Vejam os senhores e as senhoras como se vai do complicado ao simples numa mísera fração de segundos, ou como se escreve uma matéria de capa em importante jornal local cujas estatísticas elucidam o mastodonte e colossal problema sem se descer à profundidade de suas causas mais estarrecedoras. Perde-se a matéria em explicações cuja obviedade as torna de uma comicidade abissal; demonstra bem o tipo de jornalismo piegas que se faz por essas paragens; evita as questões mais cruciais e se desvia propositadamente delas.
Para os explicadores de plantão nossas ruas se tornaram um campo de batalha onde cada condutor anela ardentemente ter seu território. Para eles as ruas não são vias onde se trafega, mas territórios estáticos onde se quer ocupar certo espaço indefinidamente e, com isso em mente, o condutor sai a desobedecer as leis do trânsito. Nem lhes passa pela cabeça que o condutor queira chegar a seu destino em tempo aprazível e confortavelmente, o que de modo algum justifica as atrocidades que se fazem nas ruas.
Interessante notar que as mortes começaram a aumentar a partir de 2002, quando foi alçado ao poder o governo popul(ista)ar do senhor Lula, tendo o quadro se agravado mais recentemente em 2011, ano do maior número de mortes, ainda sob a égide do governo popular de sua sucessora. Tal governo vendeu a idéia de que o brasileiro precisa ter para ser feliz. Assim, segue mantendo o povo inculto e doente, farto de crédito e de bolsas e benefícios. Disponibilizou crédito cada vez mais barato no setor de carros e motocicletas e se “esqueceu”, como sempre o faz, de adequar a infra-estrutura à nova realidade que seguramente estava para chegar. O resultado é o que se pode chamar de efeitos do aumento da frota sem a contrapartida de ampliação da infra-estrutura. Em nenhum momento a reportagem se detém sobre essas questões. Estive em Natal há duas semanas e garanto – o problema é generalizado, é de todas ou quase todas as capitais.
Para os senhores que explicaram o problema da imprudência na forma de não uso de equipamento de segurança e direção perigosa por parte dos motociclistas, faltou dentre eles quem esmiuçasse o porquê de esses pilotos não zelarem por suas próprias vidas. Há de existir no seio do povo um quê de crença na imortalidade do corpo, de inimputabilidade física, de perenidade de sua vida; ou, por outro lado, há de existir em seu ventre o sentimento do vazio, da ausência da aculturação que suscita o amor próprio e pelo semelhante e põe a vida na perspectiva de valor individual e coletivo, no dom maior, através do qual se tem a oportunidade de conhecer o Criador e de se ser verdadeiramente feliz (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Os-devoradores-de-mentes-b1-p195.htm). Percebe-se entre muitos desses acidentados que sobrevivem, mas que saem gravemente mutilados em conseqüência, um completo desprezo pela própria integridade e vida. Esses senhores perdem seus braços e pernas e parece que aquilo que lhes aconteceu em nada impacta suas vidas, como se não nutrissem o mínimo apreço por seu corpo. Não choram nem sofrem porque foram mutilados; em nenhum momento do processo de mutilação parecem se dar conta daquilo que para outros seria motivo para um intenso sofrimento e dor moral e psicológica; muitos até se riem de como estavam bêbados por pilotar embriagados. Nada disso parece afetar seu estado de espírito; é como se a vida em si e sua qualidade não tivessem a menor importância. Ninguém na reportagem se preocupou em esmiuçar esses eventos pessoais da vida dos mutilados. Embora haja o sofrido depoimento de uma jovem viúva que perdeu o marido em acidente de motocicleta, declaro que é muito pouco dentro do contexto geral e que é nos sobreviventes mutilados onde há de repousar alguma pista sobre o que vai nesses indivíduos.
Óbvio que esta é uma população heterogênea e que é premente um estudo mais sério sobre este assunto. Quem sabe não descobrimos que a falta de educação é mais danosa do que o que julgamos?
Enquanto não se educa primariamente o povo e o motociclista, o que faz o Estado para educá-los cá na rua? Resposta: absolutamente nada, ou muito pouco. Não fiscaliza e não pune, tudo o que é necessário e suficiente para levar as coisas ao estado da arte em que estão. Veja-se que o Estado contribui bastante para dar início ao problema com sua política populista e mantenedora do status bem como presta valorosa contribuição para perpetuá-lo e até exacerbá-lo. Mais: o transporte público, que daria uma contribuição importante para resolver ou amenizar o problema, é delegado a uma existência periférica em todos os sentidos. Além disso, as obras de trens metropolitanos estão a passo de tartaruga em muitas capitais e em algumas, como aqui, elas já se arrastam há quase 13 anos. É o efeito “re-licitação” ou “re-cálculo”, que é aquele momento em que os agentes públicos e privados se dão o sinal para nova “distribuição” de recursos. Quem pode com tudo isso? Os três pod(r)eres estão mancomunados para subtrair do cidadão que trabalha e paga impostos, ao invés de se manterem independentes e a se digladiar.   
Por tudo isso é que estamos mais uma vez de pêsames por essa vergonhosa estatística, enquanto nosso jornalismo segue em sua pieguice assombrosa e vergonhosa, tal qual aquela; ele encampa um grande exemplo de nosso faz-de-conta: o fazer de conta que está a publicar matéria séria e informativa.