Se alguém visse não haveria de crer. A minha seria preferencial, a dele secundária. Adrede avançou aquele mostrengo sobre mim e obriguei-me a puxar a motocicleta para próximo ao meio-fio, fazendo uma trajetória que se angulou noventa graus daquela em que transitava, e já entrando pela rua transversal à esquerda. Seria esse o meu percurso natural, mas o avanço do microônibus me obrigou àquela manobra brusca e vexatória.
Tudo isso exigiu de mim equilíbrio emocional e mansidão de espírito. Minha freqüência não foi a mais de cem, denotando que a situação teve fácil controle. A mansidão me impediu de sair em seu encalço para a (in)devida tomada de satisfação. Mantive-me calmo. Dominei a ira que porventura se me avançasse o íntimo tal como ele avançou criminosamente a via preferencial – sem controle de si, impetuosamente, malignamente e, como disse, criminosamente. Faria tal se eu conduzisse um veículo grande, de quatro rodas? Faria aquilo se fosse obrigado a parar e a me encarar de frente?
Sou um motociclista prudentíssimo. Piloto a motocicleta a passear. Não vou ao trabalho – passeio à medida que me dirijo ao trabalho. Dou aos motoristas dos carros que estão ao meu lado e atrás a impressão de que não estou sobre uma motocicleta; eles são capazes de jurar que sou mais um carro nas enormes filas de carro desta decadente cidade; não ultrapasso pela esquerda e só trafego entre os veículos quando eles estão parados no semáforo – estando eles em movimento nunca o faço. E nunca, repito, nunca piloto em alta velocidade. A mecânica newtoniana e a equação da quantidade de movimento (Q=m.v) me ensinaram quão prejudicado eu posso sair ao pilotar em alta velocidade. Eu ainda poderia citar e enumerar uma série de atitudes prudentes que fazem parte de meu check-list ao sair de motocicleta. Citaria outra dezena de atitudes negativas que evito com a perseverança de quem quer sobreviver.
Por que ajo assim? (Esqueci um detalhe que não esqueço ao pilotar: - respeito a faixa de pedestres.) Porque no trânsito infernal o vulnerável sou eu e, como muito me aprecio, detestaria me ver lesionado ou morto. Além do mais, quero a vida dividida com a vida dos outros. Em outras palavras, quero que todos vivam. Não quero que alguns morram para que eu possa viver. O motorista daquele microônibus parecia movido por algo diferente.
Presumo que já se viram frente a frente com algum baixinho espoletado. Não sei se perceberam, mas todo baixinho é invocado e espoletado. Todo baixinho é temperamental. Digo todo e já corrijo – conheci recentemente o único baixinho que é todo boa gente, todo boa praça: o Nelsinho, residente de cirurgia vascular do HGF. O Nelsinho – aqui é óbvio aos senhores que estou a abrir um parêntese – o Nelsinho é um gentil homem que faz derreter toda e qualquer cizânia. Pois acreditem: - esse é o Nelsinho. Quem o conhecer como médico há de lhe admirar essa sua notável qualidade de homem manso e, sendo manso, com todas as possibilidades de ser um excelente cirurgião vascular.
Mas eu falava do baixinho invocado e irascível. Se já viram o baixinho colérico, hão de se perguntar o porquê de tanta sanha e de tanta fúria. Alguém já quis explicar a combinação de tais características tomando como preponderante a teoria anatômica, que assegura que todo baixinho é assim porque o nariz é próximo ao cu. Segundo essa teoria, não seria possível a qualquer ser humano, por mais finura que tivesse, gastar os dias de sua vida a sentir o cheiro de cu e seguir agindo segundo educação esmerada e principesca.
Óbvio é que a explicação anatômica não suporta o peso das evidências em todos os casos, por exemplo, o do motorista do microônibus que quase me passa por cima. De soslaio pude ver: - era um sujeito grande e atarracado, nada escanhoado. Cabe então a indagação: - se não era um sujeito pequeno, por que dirigia seu veículo com tanto arrebatamento e agressividade? Mais: - por que não se importava em trucidar sob suas rodas um ser humano? Que infusões ardiam no fundo de sua alma? Que podridão produzia aquele fogo-fátuo?
Há ainda ouras duas teorias que não constam de qualquer tratado de psicologia comportamental que bem poderiam ser aventadas para explicar o caso do motorista em questão. A primeira é a teoria do chifre; a segunda a teoria da liseira. Liseira, para quem não sabe, é um termo que designa o sujeito ou a pessoa que está sem dinheiro; chifre, ou córneos, ou guimbas são os galhos que o cônjuge põe à cabeça do outro quando namora fora do casamento. Bem conhecido é o rifão que estabelece que quando o camarada está triste ou exaltado, das duas uma: - ou lhe puseram guimbas, ou está liso. Assim, como o motorista quase assassino não se conduz pela teoria anatômica por ser um sujeito de porte avantajado, é possível que estivesse impactado por uma das duas outras. Fica a sugestão aos senhores que administram o trânsito a que doravante usem, em seus testes psicológicos aos exames para a obtenção da licença para dirigir, o teste do corno e o teste do liso. Ajudaria a esclarecer inúmeros casos de atropelamentos, abalroamentos e até de capotamentos.
Explica-se: - não é qualquer um que dirige um veículo de forma competente e exemplar após levar um chifre ou ver minguarem-se-lhe os recursos antes do fim do mês. São dores excruciantes que só a pessoa que sente sabe como é. Vai ver dá mesmo vontade de passar por cima de meio mundo. A questão individual é ter a sorte ou o azar de cruzar com um desses camaradas. Uma loteria da morte.
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