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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Há ou não uma diferença, Pasquale?

          Ouvi agora, há pouco, o âncora de um telejornal anunciar que alguém, um adolescente da FEBEM, acho, fora "enforcado até a morte". De imediato fiquei pensando se há algum enforcado que não o seja, já que enforcar(-se) significa "dar morte a alguém na forca" ou "matar-se por enforcamento". Daí minha conclusão: - o redator pretendeu enfatizar a morte do adolescente, certificar ao telespectador que o jovem, de fato, morreu. Usou de uma tautologia para, quem sabe, anunciar o fato com sensacionalismo. O jornalismo sabe muito bem fazer isso.
                 Faz-se isso também, muitas vezes, com o verbo "afogar(-se)". Diz-se comumente: -"Fulano morreu afogado", quando o correto seria dizer apenas que "fulano afogou-se". Se o fulano passou maus bocados na água, mas sobreviveu, diz-se que fulano sofreu um quase-afogamento. 

          Vejam, por exemplo, que, no dicionário de língua portuguesa, motoqueiro e motociclista são sinônimos, significam a mesma coisa, isto é, "a pessoa que conduz uma motocicleta". O diabo é que nem a morfologia - que é o ramo da lingüística que estuda a estrutura, a formação e a classificação das palavras - favorece o conceito distinto que faço de ambas. "Ista" e "eiro" são sufixos que formam nomes de agente e, portanto – sem entrar em mais detalhes porque minha ignorância não permite –, motociclista e motoqueiro também têm uma excelente base morfológica para lhes irmanar o significado. Aparentemente estou em maus lençóis na questão, como o fulano que não sabe nadar, uma vez que insisto na diferença gritante e aparentemente inexistente entre ambas. Assalta-me, todavia, a nítida certeza de que não me afogarei na matéria.

          A distinção, caro leitor, está não no pai dos burros nem na morfologia, mas no comportamento. Alguém dirá que uso de uma reprovável justificativa para subverter o ordenamento das regras da língua madre, numa demonstração de obtusidade e tibieza,  e provavelmente estará certo quem o alegar. Entenda apenas o entediado leitor que o faço por uma questão de vida ou morte, de integridade ou mutilação, de prevenção de gastos públicos desnecessários e de invalidezes evitáveis. Se tudo isso não justificar os meios então o mensalão também não justificará o projeto petista de poder.
          Há uma ideia de meus próprios miolos que faz bem ver a distinção entre motoqueiros e motociclistas. O motoqueiro pensa a motocicleta como uma bicicleta motorizada, uma bicicleta com motor, ao passo que o motociclista a entende como um carro sobre duas rodas. Não sei se fui claro, mas me pareceu a princípio uma excelente característica distintiva. Se não, vejamos.
          O sujeito que anda de bicicleta sobe a calçada e a passarela, pedala entre os veículos, não se obriga a parar no vermelho, trafega na contra-mão, não respeita as faixas, e se percebe cheio de razão e privilégios no trânsito. Enche a cara quando bem quer e entende. Afinal, não há lei que proíba de beber o ciclista. Óbvio é que o ciclista que ama a vida não a põe em risco à toa. O motoqueiro seria um ciclista debochado, petulante, arrogante e, acima de tudo, irresponsável. Faz tudo aquilo e um pouco mais em sua bicicleta provida de motor, o que o leva a ousar a única manobra que não faria com a bicicleta desprovida daquele – pilotar em alta velocidade. 
          O motociclista, por sua vez, sabe que seu veículo é um carro sem cabine, sem para-choques, com a desvantagem adicional de rodar sobre duas rodas. Pilota como quem dirige um carro e cheio de medo e exagerados cuidados. Imagina que sua motocicleta ocupe o mesmo espaço que um verdadeiro carro e procura estar sempre à vista de todos. Cerca-se, portanto, de todos os cuidados possíveis e impossíveis a todos os outros condutores. O motociclista é neurótico e medroso, tranqüilo e manso, gentil e cauteloso; quer proteger a todo custo a integridade da pessoa que mais ama na vida – ele mesmo. 
          Agora me diga: - há ou não uma diferença, Pasquale?

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