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sábado, 10 de maio de 2014

Os devoradores de mentes

         Juro por tudo que há de mais sagrado aos vossos olhos – detesto escrever sobre coisas ruins. Lembrem que, não faz muito tempo, um amigo me alertou: sua filha não gostaria de meus temas. E justificou: escrevo sobre coisas ruins.
Peço, então, uma única e singela oportunidade. E que me julguem se é ruim quem escreve ou a própria realidade. E, se é ruim a realidade, quem a faz assim? Quem escreve sobre ela, demonstrando-a, dissecando-a, escancarando-a? Ou quem a constrói todos os dias?
Raimundo Edison tem 43. É gerente de uma fábrica. Saiu de um restaurante próximo à empresa onde trabalha, onde almoçava, e foi atropelado. O motorista estava a beber no mesmo restaurante. Estava bêbado. Raimundo sofreu um traumatismo crânio-encefálico leve, mas teve seu tornozelo esmagado. O esmagamento causou uma fratura-luxação exposta gravíssima do tornozelo esquerdo com lesão vascular múltipla e complexa, ruptura da cápsula articular e perda da cobertura circunferencial da pele. Evoluiu com gangrena do pé requerendo a amputação da perna abaixo do joelho. Suas chances de reabilitação são ótimas, mas terá de usar uma prótese para voltar a andar. É humilde. Seu meio lhe ensinou que deve ter uma ajuda vitalícia do governo. Há de requerê-la. O motorista bêbado saiu livre e talvez um dia atropele e mate outra pessoa. Sua irresponsabilidade gerou um custo absolutamente desnecessário ao sistema de saúde e, talvez, ao sistema previdenciário. A sociedade prefere arcar com as conseqüências de seu ato irresponsável a puni-lo exemplarmente.
Francisco Elço tem 31. Estava bêbado quando pilotava sua motocicleta, e não usava capacete. O acidente foi no interior e no interior não se fiscalizam os motociclistas nem as motocicletas. Ao contrário, alguns políticos sugeriram que aos pobres não é obrigatório cumprir a lei. Por isso a fiscalização não fiscaliza. A constituição diz que todos são iguais perante a lei. Não é o que dizem esses políticos e gestores públicos. Os pobres, por serem pobres, não podem cumprir a lei, e por isso são “isentos”, ou inimputáveis. Não se mudou a constituição, mas o que diabos é a constituição? Serve pra quê? Nada disso importa. Os fatos são os seguintes além dos relatados acima. Francisco Elço teve um trauma tão complexo de seu membro inferior esquerdo (coxa-perna-pé) que chegou ao hospital da capital em franco choque hemorrágico. Mais um pouco e a bebedeira custar-lhe-ia a vida. Não foi possível, contudo, salvar-lhe o membro. Foi necessária uma desarticulação coxo-femoral. Como é pobre, Francisco Elço nunca terá uma prótese que substitua seu membro perdido. Usará muletas e cadeira de rodas, que o governo providenciará. Como não tem estudo, pedirá ao governo aposentadoria por invalidez. A sociedade se julga muito rica, já que prefere arcar com esses custos a prevenir esse tipo de trauma absolutamente evitável. Não quer coibir e punir o pobre porque o pobre deve continuar pobre e dependente do governo. Será melhor para o pobre? Os custos do tratamento hospitalar de Francisco Elço são elevadíssimos. Não importa. Ele é inimputável. O governo reconhece, como representante da sociedade, que ele é pobre por sua responsabilidade. Por isso não o faz cumprir a lei. A sociedade se exime de salvar Elço dele mesmo. ainda paga todas as despesas.
Severino Filadélfia vinha há três dias bebendo. Também acabou perdendo o membro inferior direito. Não vou repetir a mesma história. Poderia contá-la dez, quinze vezes. É o número de vezes que ela ocorre no IJF em... o que? Três, quatro meses? Não são perguntas difíceis de responder. Basta consultar a base de dados. Eles estão lá. Os dados. Mas, o que são dados neste lugar, neste país? Nada, absolutamente nada. Para que servem? Para nada. Para que servem dados gritantes se seus gritos não se ouvem? Ainda estamos discutindo o que só se discute em sociedades atrasadas. Ainda discutimos o que é e o que não é uma emergência. Ainda não sabemos. Persiste a dúvida. Discordamos do elementar. Ora, ainda discutimos para que sirva a cadeia! Para punir ou para recuperar? Sempre achei esta uma questão tão básica: - para punir. Vai ver é por isso que o sujeito que mata uma única e solitária vez não vai para a cadeia – não há nada nele a recuperar. Seu crime foi um acidente de percurso, por assim dizer. É um sujeito com residência fixa, curso superior, bons antecedentes. É um sujeito exemplar. Para ir para a cadeia, que antes se torne um facínora. Então, tentemos recuperá-lo. E para recuperá-lo não o prendamos por muito tempo, mesmo que seja um facínora. Não queremos gastar dinheiro público com essas pessoas. Vamos submetê-las a uma “progressão da pena” para desafogar a fossa.
Enquanto fazia o curativo do senhor Francisco Elço e o examinava, lá fora passava um veículo com o som às alturas, um forró, um jingle de candidato a político. Às alturas. Quando era menino me impressionavam as placas defronte os hospitais exigindo “Silêncio! Hospital!” Hoje...
Lá fora, ali na frente, o jovem maltrapilho dorme sobre um colchão maltrapilho coberto com um lençol maltrapilho. Na calçada. Bem cedo alguém vem lhe trazer a pedra. Ele paga com o dinheiro que alguém lhe dá por bem ou por mal e está fechado o negócio. Todos os dias. Todos sabem. Todo dia. Todos sabem...
Vou ao centro. Outros lá estão, sob marquises, à porta de lojas, sobre os bancos das paradas de ônibus. Dormindo sob o sol escaldante da “Fortaleza Bela”. São adolescentes e crianças. Sujos, maltrapilhos, magros, feios, abandonados.
Adentra o hospital quem está fora. O povo vem e vai. Ninguém se importa. Meu amigo quer evitar que sua linda filha se importe. Como todo o resto.

Fernando Cavalcanti, 25.08.2010              

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Indignação criminosa

                A rua Antonio Augusto é uma das muitas ruas desta cidade que nascem próximo ao mar e se embrenham no sentido do interior. Ela começa na Avenida Historiador Raimundo Girão. Em que pese o fato de sua numeração ser progressivamente maior à medida que avança para longe do mar, seu sentido de tráfego é o oposto, do interior para a praia. Ela, portanto, é via de mão única.
                Em seu nascedouro há dois condomínios recém construídos, um à direita, o outro à esquerda. Posicionam-se um defronte o outro. O acesso à garagem de ambos se dá justamente pela Antônio Augusto. A Historiador é avenida de mão dupla.
                Assim, devido a essa disposição de tráfego é freqüente que motoristas e motociclistas cedam à tentação de trafegar por ela na contra-mão, principalmente os moradores dos dois referidos prédios localizados à esquina. Por que contornar o quarteirão para entrar na garagem se posso trafegar por 15 ou 20 metros na contra-mão e ter acesso a ela?
                A Antônio Augusto é rua de movimento relativamente intenso em determinadas horas do dia e da noite, o que faz com que o tráfego por ela na contra-mão seja uma manobra arriscada e até afrontosa aos veículos que estão transitando segundo manda a lei.
                  Raramente saio à noite na motocicleta, salvo em casos excepcionais. Segunda passada saí. E eis que desço Antonio Augusto no sentido praia. Aproximo-me do cruzamento com Historiador. A poucos metros, quase chegando, percebo um carrão enorme, um desses modelos que os cearenses gostam mais que todo o resto da população brasileira, se insinuando para avançar pela contra-mão. Não parei. Ao notar minha aproximação ele brecou. Ficamos parados um defronte o outro, cara a cara, o carrão e minha motocicleta, na esquina. Meu pneu dianteiro estaria a, o quê,  30 centímetros de seu para-choque da frente. Não conseguia ver o rosto do guiador. Estava escuro e o para-brisa se revestia de uma película negra. Passaram-se cerca de 15 a 20 segundos.
                Ele então engatou a ré e retrocedeu o suficiente para, distanciando-se um pouco da motocicleta, engatar a marcha e contornar aquele motociclista de merda que se postara à sua frente impedindo-o de entrar direto na contra-mão. Não desistiu, contudo. Contornou-me e entrou no contra-fluxo, na faixa ao lado, para entrar na garagem do prédio à esquerda do fluxo. Ao passar por mim, encarou-me sério e resmungando alguma coisa baixinho. Certamente disse: -"Filho da puta"!; ou, como se diz aqui no Ceará: -"Baitola"! 
                Eu estava indignado. Não com o xingamento, mas com a audácia do "cidadão" que cometera uma infração grave e de risco para terceiros. Por sua vez, a indignação do homem também era clara feito água. Admito: - minha indignação cresceu ainda mais, e muito, por conta dessa indignação criminosa. 
                Passei a primeira e debandei certo de ter arriscado a vida: - escapei de ser abalroado de frente e de ser alvejado com um tiro. Em ambas as hipóteses, somente eu sairia perdendo. O criminoso escaparia cheio de indultos e de amenizações, e eu estaria apodrecendo debaixo de sete palmos de terra seca.