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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Motociclista é quem mais morre no trânsito do Ceará

Ali no supermercado avisto a manchete estampada à primeira página do jornal O Povo de hoje, 08.06.2012:“Motociclista é quem mais morre no trânsito no Ceará” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2012/06/08/noticiasjornalfortaleza,2854824/em-dez-anos-numero-de-mortes-cresceu-quase-195.shtml).
Dou-me à insolência de corrigir o editor e o revisor do jornal reescrevendo sua principal manchete. Ficaria assim: “Motociclista é quem mais morre no trânsito do Ceará”. Agora passo à arrogância de amputar-lhes a manchete e escrevê-la de outra forma, mais reduzida. Seria: “Motociclista é quem mais morre no trânsito”. Tal prepotência me exime da acusação de plágio do título. Caberia, a partir de agora, a seguinte pergunta: motociclistas são os que mais morrem no trânsito em todo o mundo? É assim em Maceió? no Xapuri? em São Paulo? E em Curitiba, a cidade que se tornou modelo de cidade para nós? um tipo a ser imitado. Lá também morrem os motociclistas tão desgraçadamente como cá?
Imaginemos que tenhamos à mão as estatísticas de mortalidade no trânsito de todas as cidades do mundo com mais de 50 mil habitantes, e que na maioria absoluta delas ficasse evidente que, sim, os motociclistas são a fatalidade número um. Poderíamos concluir, quero crer, que pilotar uma motocicleta seria, em termos absolutos em todo o mundo, muito mais mortal do que dirigir um carro ou andar a pé.
Ainda assim teríamos sérias dúvidas. Digamos agora que em todas as cidades do mundo o motociclista morresse mais, exceto em uma cidade. A pergunta seria: o que tem esta cidade que lá os motociclistas morrem bem menos no trânsito que em todas as outras?
Vê-se que estatísticas dessa natureza só servem a evidenciar os problemas, ou soluções, ou diferenças de lugares específicos, motivo pelo qual parabenizo os editores do O Povo por terem incluído em sua manchete de hoje o local específico onde os motociclistas estão a morrer cada vez mais – o estado do Ceará.
Entremos aos detalhes da matéria da jornalista Gabriela Meneses. Lá escreve ela o seguinte: “Para os órgãos de trânsito, o aumento da frota associada à imprudência contribuiu para o crescimento dos números”.
Quanto ao aumento da frota diz o chefe do núcleo de trânsito da Autarquia Municipal de Trânsito: “Quanto mais carros maior o conflito para conseguir um espaço na rua”. Uma psicóloga pesquisadora do tema “mobilidade urbana” disse ainda sobre o aumento da frota: “o espaço reduz e quem está nas vias faz de tudo para ocupar seu território e é nesse momento que se começa a desrespeitar as leis do trânsito”.
Referindo-se à imprudência a matéria conclui que “não usar capacete, ultrapassar o limite de velocidade e pilotar ‘costurando’ os carros” são as maiores cometidas pelos motociclistas.
Vejam os senhores e as senhoras como se vai do complicado ao simples numa mísera fração de segundos, ou como se escreve uma matéria de capa em importante jornal local cujas estatísticas elucidam o mastodonte e colossal problema sem se descer à profundidade de suas causas mais estarrecedoras. Perde-se a matéria em explicações cuja obviedade as torna de uma comicidade abissal; demonstra bem o tipo de jornalismo piegas que se faz por essas paragens; evita as questões mais cruciais e se desvia propositadamente delas.
Para os explicadores de plantão nossas ruas se tornaram um campo de batalha onde cada condutor anela ardentemente ter seu território. Para eles as ruas não são vias onde se trafega, mas territórios estáticos onde se quer ocupar certo espaço indefinidamente e, com isso em mente, o condutor sai a desobedecer as leis do trânsito. Nem lhes passa pela cabeça que o condutor queira chegar a seu destino em tempo aprazível e confortavelmente, o que de modo algum justifica as atrocidades que se fazem nas ruas.
Interessante notar que as mortes começaram a aumentar a partir de 2002, quando foi alçado ao poder o governo popul(ista)ar do senhor Lula, tendo o quadro se agravado mais recentemente em 2011, ano do maior número de mortes, ainda sob a égide do governo popular de sua sucessora. Tal governo vendeu a idéia de que o brasileiro precisa ter para ser feliz. Assim, segue mantendo o povo inculto e doente, farto de crédito e de bolsas e benefícios. Disponibilizou crédito cada vez mais barato no setor de carros e motocicletas e se “esqueceu”, como sempre o faz, de adequar a infra-estrutura à nova realidade que seguramente estava para chegar. O resultado é o que se pode chamar de efeitos do aumento da frota sem a contrapartida de ampliação da infra-estrutura. Em nenhum momento a reportagem se detém sobre essas questões. Estive em Natal há duas semanas e garanto – o problema é generalizado, é de todas ou quase todas as capitais.
Para os senhores que explicaram o problema da imprudência na forma de não uso de equipamento de segurança e direção perigosa por parte dos motociclistas, faltou dentre eles quem esmiuçasse o porquê de esses pilotos não zelarem por suas próprias vidas. Há de existir no seio do povo um quê de crença na imortalidade do corpo, de inimputabilidade física, de perenidade de sua vida; ou, por outro lado, há de existir em seu ventre o sentimento do vazio, da ausência da aculturação que suscita o amor próprio e pelo semelhante e põe a vida na perspectiva de valor individual e coletivo, no dom maior, através do qual se tem a oportunidade de conhecer o Criador e de se ser verdadeiramente feliz (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Os-devoradores-de-mentes-b1-p195.htm). Percebe-se entre muitos desses acidentados que sobrevivem, mas que saem gravemente mutilados em conseqüência, um completo desprezo pela própria integridade e vida. Esses senhores perdem seus braços e pernas e parece que aquilo que lhes aconteceu em nada impacta suas vidas, como se não nutrissem o mínimo apreço por seu corpo. Não choram nem sofrem porque foram mutilados; em nenhum momento do processo de mutilação parecem se dar conta daquilo que para outros seria motivo para um intenso sofrimento e dor moral e psicológica; muitos até se riem de como estavam bêbados por pilotar embriagados. Nada disso parece afetar seu estado de espírito; é como se a vida em si e sua qualidade não tivessem a menor importância. Ninguém na reportagem se preocupou em esmiuçar esses eventos pessoais da vida dos mutilados. Embora haja o sofrido depoimento de uma jovem viúva que perdeu o marido em acidente de motocicleta, declaro que é muito pouco dentro do contexto geral e que é nos sobreviventes mutilados onde há de repousar alguma pista sobre o que vai nesses indivíduos.
Óbvio que esta é uma população heterogênea e que é premente um estudo mais sério sobre este assunto. Quem sabe não descobrimos que a falta de educação é mais danosa do que o que julgamos?
Enquanto não se educa primariamente o povo e o motociclista, o que faz o Estado para educá-los cá na rua? Resposta: absolutamente nada, ou muito pouco. Não fiscaliza e não pune, tudo o que é necessário e suficiente para levar as coisas ao estado da arte em que estão. Veja-se que o Estado contribui bastante para dar início ao problema com sua política populista e mantenedora do status bem como presta valorosa contribuição para perpetuá-lo e até exacerbá-lo. Mais: o transporte público, que daria uma contribuição importante para resolver ou amenizar o problema, é delegado a uma existência periférica em todos os sentidos. Além disso, as obras de trens metropolitanos estão a passo de tartaruga em muitas capitais e em algumas, como aqui, elas já se arrastam há quase 13 anos. É o efeito “re-licitação” ou “re-cálculo”, que é aquele momento em que os agentes públicos e privados se dão o sinal para nova “distribuição” de recursos. Quem pode com tudo isso? Os três pod(r)eres estão mancomunados para subtrair do cidadão que trabalha e paga impostos, ao invés de se manterem independentes e a se digladiar.   
Por tudo isso é que estamos mais uma vez de pêsames por essa vergonhosa estatística, enquanto nosso jornalismo segue em sua pieguice assombrosa e vergonhosa, tal qual aquela; ele encampa um grande exemplo de nosso faz-de-conta: o fazer de conta que está a publicar matéria séria e informativa. 

Um comentário:

  1. Ainda tem o alto custo para o SUS e o imensurável para os profissionais da saúde que trabalham em hospitais públicos!! Até quando tanto descaso? Acredito que o problema se as montadoras pagassem imposto por cada moto produzida, com destinação para o SUS!

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