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segunda-feira, 18 de junho de 2012

O trânsito, o Estado e a imprensa

          Acabo de assistir à matéria levada ao ar em  certo programa de televisão local em que se abordou o alarmante aumento do número de acidentes com motocicletas no Estado do Ceará. Entrevistaram-se o doutor Lineu Jucá, cirurgião vascular do Instituto Dr. José Frota, e um ex-paciente daquele hospital vitimado por acidente em sua motocicleta.            
          Devo dizer que a entrevista foi decepcionante; não em decorrência dos entrevistados, mas por inteira responsabilidade do entrevistador. Após a exposição, por parte do doutor Lineu, das apavorantes estatísticas que demostram a completa e aparentemente definitiva falência dos poderes constituídos e das autoridades de trânsito do Estado e, por que não dizer?, do país no que tange ao controle do caos em que ele se tornou e do breve relato do ex-paciente sobre seu acidente, o entrevistador encerrou sumariamente a entrevista. Senti-me como o sujeito que está a conversar com alguém e repentinamente se vê falando sozinho, posto que o outro abandona o entrevero antes do fim.            
          Nem me darei o trabalho de falar mal do entrevistador porque ele é âncora de um programa de auditório e não um repórter. Se em seu currículo constar que tenha formação jornalística poderemos lhe cobrar as aulas a que faltou, mas até lá lhe daremos o beneficio da dúvida. A última pergunta que fez – só fez duas ou três – foi magistral: "o que se pode fazer para diminuir isso, doutor Lineu?" O médico apenas começou a responder. E a entrevista terminou. Vejam que não digo que o entrevistado foi interrompido ou coisa que o valha. Sua resposta até então seria o introdutório a um discurso maior já que estaria justamente aí toda a essência do que queríamos e gostaríamos muitíssimo de saber. Mas não. Tudo ficou por aí, na superficialidade eterna de nossas entrevistas e matérias jornalísticas. Estarei certamente cometendo uma pequena injustiça com raros, excelentes e competentes jornalistas de nossa terra, mas só em lembrá-los e lhes atribuir uma exceção a esse vergonhosa regra me redime de tal.            
          A resposta do doutor Lineu foi clara como água – disse que tudo o que se tinha a fazer para reduzir e minimizar os acidentes com motocicletas e as mortes e mutilações decorrentes destes seria, por parte dos motociclistas, obedecer estritamente às regras e leis do trânsito e, por parte das autoridades, fiscalizar e punir exemplarmente os infratores. O que o entrevistador deveria ter feito a essas alturas seria explorar destemidamente as razões e os porquês de nem um nem outro estarem fazendo a sua parte.            
         Virando-se para o mutilado, que fazia questão de exibir como um troféu a sua perneta, o entrevistador indagou-lhe das circunstâncias de seu acidente. Ele respondeu que estava completamente embriagado na ocasião. Não me recorda se ele se referiu a ter cometido outra falta grave como não estar usando equipamento de segurança, ou estar com a habilitação vencida, ou trafegar em alta velocidade; só a embriaguez foi o suficiente para me estarrecer. Naquele momento o entrevistador poderia ter explorado de forma cordial, no acidentado, quais as razões que o levaram a agir daquela forma, pondo em risco a sua própria vida. Ao espectador se daria a oportunidade de lucubrar sobre o que se passa na mente de indivíduos como aquele.            
         Doutor Lineu ainda destacou aspecto importante sobre os acidentes de motocicleta: seu custo direto na forma de recursos gastos pelo Estado no tratamento desses indivíduos, bem como seu custo indireto na forma de ausência do trabalho, invalidez temporária ou permanente. Não havia na entrevista nenhum represente do povo, alguém do Estado, para explicar por que ele, Estado, não demonstrava estar zelando para minimizar a perda da dinheirama por este rombo a céu aberto.            
         Enfim, muito subjetivamente, apenas muito subjetivamente, dá para entender por que o problema não terá solução e por que a imprensa local não informa com qualidade. Ou não ficou claro? 

17.06.2012

3 comentários:

  1. Sem dúvida, Fernando, culpar a moto é como criticar o instrumento e não o músico. A partir da própria preparação do motoqueiro que é muito básica, sem preparar o motoqueiro para a rua, mas apenas para o teste no DETRAN. Não existe uma cultura motociclista, um estudo do que se trata, como se portar, e por aí vai. E você é um grande exemplo de um motoqueiro que sai para se divertir, beber e deixa a moto em casa. Parabéns! Forte abraço!

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    1. É isso, caro amigo. Eu gosto de mim. E esses caras? gostam de si mesmos? Obrigado pela contribuição valorosa. Sinto-me honrado. Forte abraço!

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